Enquanto crianças são abandonadas, famílias aguardam para adotar

Romana demonstra carinho ao tatuar bonecos, representando sua filha biológica e o menino que está em processo de adoção. Fotos: André Redlich.
Mas crianças maiores de oito anos ou portadora de deficiência física ou problema de saúde, encontram maior dificuldade para serem adotadas
Enquanto mães abandonam seus bebês nas ruas, cerca de 150 famílias aguardam na fila de adoção em Niterói. Os dados são do Juizado da Infância e Juventude de Niterói, que revelou a existência de apenas 18 crianças e adolescentes com destituição familiar registradas no Cadastro Nacional de Adoção. Como boa parte seria maior de oito anos ou portadora de algum tipo de deficiência física ou problema de saúde, encontram maior dificuldade para serem adotadas.
“Os pais antes traçavam um perfil de crianças de zero a três anos. Atualmente esse perfil foi ampliado para até cinco anos”, revela a assistente social responsável pelo Grupo de Apoio à Adoção Quintal da Casa de Ana, Karla Alevato, lembrando, porém, que ainda há uma preferência por bebês.
Ainda há no município crianças com indicação para adoção. Embora esse número seja maior, ele não entra no cadastro nacional por não haver a destituição familiar. Nesses casos, a família interessada na adoção já convive com a criança, mas tem que aguardar o desenrolar do processo na Justiça. O juizado não define o número de crianças nesta situação.
E não são apenas casais sem filho que buscam a adoção.
“Hoje, até os pais que já têm filhos biológicos querem ampliar a família e adotar mais um. Não temos uma estimativa, mas verificamos essa predominância”, afirma Karla Alevato.
Na Casa Maria de Magdala, no Sapê, em Niterói, existem abrigadas atualmente 11 crianças, de 5 a 14 anos, entre meninos e meninas, todas soropositivas. Ano passado não houve nenhuma adoção. A responsável legal, Márcia Maria de Carvalho, comenta que as crianças têm toda uma orientação para se tornarem adultas independentes, caso não sejam adotadas.
“Trabalhamos a criança para que esteja bem no grupo. Nós damos educação no sentido de formação de caráter e fazemos a evangelização. Temos uma escola no abrigo com atendimento educacional especializado. Todos são muito bem educados e somos orgulhosos deles”, ressalta.
Para que a adoção aconteça, as famílias interessadas devem procurar o Juizado, que as encaminhará para o Quintal da Casa de Ana. Na instituição, os futuros pais irão passar por um processo de amadurecimento da ideia de adoção.
Após análise feita pela instituição, os “pais” aptos recebem um certificado e são encaminhados novamente ao Juizado, onde darão entrada no processo de adoção. Caso o pretendente não tenha tido um desenvolvimento satisfatório, a Casa de Ana orienta a continuar a participar das reuniões.
Abandono - No início do ano, um recém-nascido foi abandonado na porta de uma residência em São Francisco. O bebê foi levado para o Hospital Estadual Azevedo Lima (Heal), no Fonseca.
Em Itaboraí, no mesmo mês, outro recém-nascido foi encontrado, na localidade de Vila Gabriela, em Manilha, Itaboraí, após ser abandonado pela mãe na porta de um bar. O bebê foi encontrado por uma assistente social que estava passando pelo local e o levou ao Hospital Municipal Desembargador Leal Junior, no Centro.
Rejeitado pela família, C. só agora conhece o amor
A auxiliar de secretária Romana Siqueira dos Santos, de 47 anos, atualmente está com a guarda provisória do pequeno C., de quatro anos. A criança foi tirada dos pais biológicos pelo Juizado, quando tinha apenas dois anos, pois a família estaria maltratando o menino, que de tão debilitado estava com problemas de saúde e tomando remédios controlados.
“Minha filha era voluntária no abrigo onde ele vivia e sempre que podia, ele passava o final de semana conosco. Nos apaixonamos, mas tivemos que enfrentar toda a espera de uma fila de adoção”, lembra.
C. tinha três irmãos, que teriam sido adotados pela avó materna. Mas segundo Romana, o menino seria fruto de um relacionamento que não teria agradado a avó da criança, que não quis ficar com ele.
“Acho que a avó dele não gostava do pai dele. Tanto que nem quis ver a criança quando levou os outros”, comenta.
De acordo com a secretária, seis casais foram conhecer C., mas com sérios problemas de saúde, os pretendentes não retornaram para levá-lo pra casa.
“Passamos por maus momentos. Começamos o processo tardiamente e tivemos que respeitar a fila. No abrigo, era preciso avisar que ele tinha problemas, e os pretendentes diziam que iam pensar e não voltavam. Era para ele ser nosso mesmo. Foi Deus”, avalia.
Em 2010, Romana conseguiu a guarda provisória e C., que este ano completará dois anos na sua nova família.
“No dia 2 de maio, Dia Nacional da Adoção, ele vai completar mais um ano conosco. Estamos apenas esperando que a Justiça localize a família dele para que o juiz se pronuncie e os avise da adoção. Assim, teremos a guarda definitiva”, aguarda ansiosa.
Fonte:O FLUMINENSE
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