Seguidores

terça-feira, janeiro 24, 2012

A cara da miséria na cidade com a maior renda per capita do Brasil

O eldorado niteroiense ainda tem 36 mil pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza
  

MARIA JOSÉ chora por não ter nada na dispensa para o jantar
Foto: Marcelo Piu
MARIA JOSÉ chora por não ter nada na dispensa para o jantar 
Foto:Marcelo Piu

Quando a pernambucana Maria José Santana da Silva, de 53 anos, termina mais um dia de serviço num dos endereços mais nobres de Icaraí ela não sabe o que vai fazer para o jantar. Viúva, sustenta sozinha três filhos, dois netos e uma sobrinha-neta com R$ 607 que ganha como empregada doméstica de uma família de classe média-alta. A realidade de sacrifício e pobreza é a mesma de outras 8.359 famílias de Niterói que estão abaixo da linha da miséria e que, a partir desta terça-feira, passam a fazer parte do programa estadual Renda Melhor. O pagamento do benefício começa em março.
— Hoje não tenho nada no meu armário. Carne, então, é uma vez ou outra. É difícil sustentar todo mundo — lamenta a pernambucana, que mora na comunidade da Cotia, na Avenida Ari Parreiras, em Icaraí.
Este é apenas um quadro da desigualdade social do Brasil, que recentemente foi apontado por uma organização social que estuda a miséria no mundo como a segunda pior entre as principais economias do planeta.
Segundo levantamento da Secretaria estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, em Niterói, mais de 36 mil pessoas vivem com menos de R$ 100 por mês, menos da metade do custo da cesta básica no estado, calculada pelo Dieese em R$ 250.
Niterói tem a maior renda per capita do Brasil (R$ 2.031,18), mas o contraste é gritante quando se compara ao outro lado da realidade econômica da cidade. Segundo o sociólogo André Brandão, diretor-adjunto do DataUFF, instituto de pesquisa vinculado à pró-reitoria da Universidade Federal Fluminense, este é o retrato do modelo econômico adotado ao longo de décadas no país:
— Há uma parcela da sociedade extremamente vulnerável que foi produzida por anos de esquecimento. Muitos nunca terão a oportunidade de participar desse momento de desenvolvimento econômico. Estão sempre à margem da sociedade.
Hoje, 7,38% dos moradores de Niterói estão abaixo da linha da miséria, mas, ainda assim, a cidade continua sendo um eldorado econômico se comparada a municípios da Região Metropolitana, como São Gonçalo e Japeri, que têm 14% e 20% da sua população recebendo menos de cem reais.
Programa prevê pagamento de R4 30 a R$ 300
A história de Maria José se repete em todas as localidades de Niterói. Só no Fonseca são mais de 1.200 famílias que vivem abaixo da linha da miséria, como a dona de casa Lenita Freitas da Cunha, de 44 anos, desempregada há três meses. Ela será uma das beneficiárias do programa de Renda Melhor, do governo do estado, que começa a ser implantado na cidade na próxima terça-feira, por meio da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos.
Antes mesmo de começar a receber o benefício que varia de R$ 30 a R$ 300 por família, dona Lenita já faz planos. Ela receberá o máximo previsto pelo projeto e quer reformar a casa.
— Não tenho água encanada em casa. Tudo que eu faço é na base do balde. Quero colocar uma torneira na minha pia e um chuveiro — comemora Lenita, que mora no Morro do Eucalipto, na subida da Rua Desembargador Lima Castro, com os seis filhos e o companheiro, João Freitas, de 45 anos, que faz bicos no setor da construção civil.
Além do programa de transferência de renda, o governo lança junto o Renda Melhor Jovem, que prevê uma poupança de até R$ 3.100 para estudantes que completarem o ensino fundamental. A escolaridade é vista como uma das principais saídas para a diminuição da desigualdade social.
— O investimento em Educação é a única maneira de se alcançar mobilidade social de forma permanente. Tem que ser uma política de estado, como foi na Coreia do Sul, por exemplo — explica o sociólogo André Brandão.
A meta é inscrever 1,3 milhão de pessoas até 2014
Rodrigo Neves, secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, diz que apesar de Niterói ter o menor índice de pobreza da região, criou-se na cidade o que classificou como mito da qualidade de vida:
— Essa é a cara população da periferia que, até a tragédia do Morro do Bumba, participava do mito do melhor IDH do Rio. São milhares de pessoas que não tiveram acesso às políticas públicas durante décadas.
Segundo Neves, além da transferência de renda, uma das metas do estado é aumentar a oferta por qualificação profissional e diagnosticar, por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras), famílias com alta taxa de vulnerabilidade social, como a da dona de casa Maria do Livramento Dias Barbosa, de 40 anos, que mora com seis filhos e o companheiro numa residência de dois quartos, no Morro do Cavalão, no coração da Zona Sul de Niterói. A filha mais velha, Leonnice, de 19 anos, sofre de deficiência mental e recebe benefícios da Previdência Social. A renda, que era para ajudar nos custos do tratamento, muita das vezes, complementa o orçamento da família:
— Nos meses em que conseguimos os remédios dela de graça, o dinheiro que sobra dá para comprar uma carne ou uma roupa para a gente.
Os programas Renda Melhor e Renda Melhor Jovem fazem parte da principal meta lançada pela presidente Dilma Rousseff (PT) no início do seu governo. No Rio, o governo estadual pretende cadastrar 1,3 milhão de pessoas no benefício em 92 municípios. A exceção fica por conta da capital, que não receberá o Renda Melhor, já que conta com um programa próprio, o Cartão Família Carioca. Já o Renda Melhor Jovem será oferecido aos jovens da capital ainda este ano.

Reprodução do jornal O Globo





Fonte: O Globo

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Oi, obrigado por deixar seu pitaco!
Volte sempre!